Boletim Abiodum

O Boletim Abiodum, cujo nome tem origem Ganesa, significando “nascido em tempo
de guerra” evocando a força da coletividade e a necessária ação de disputa por um projeto de educação radicalmente democrático, nasceu pelas mãos da professora Vânia Beatriz Monteiro da Silva, então, tutora do Programa de Educação Tutorial (PET) de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com a colaboração dos bolsistas, com o objetivo de promover o conhecimento e a valorização de
identidade, da cultura e da história de grupos humanos que, historicamente são relegados ao plano inferior na hierarquia social nas sociedades
contemporâneas.
De caráter informativo, o boletim é elaborado pelas bolsistas do PET/Pedagogia em
conjunto com a tutora e com os/as professores/as colaboradores/as, a partir dos resultados de pesquisas, ações de ensino e extensão, que abordam a temática da cultura africana, afro-brasileira e indígena e sobre leis relativas a essas temáticas.

Apresentamos aqui as duas edições do ano de 2017:

Abiodum v. 9, n.1, jan./jul. 2017.

Abiodum v. 10, n.2, jul./dez. 2017.

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Entrevista de Eliane Debus de para o MULTDICS ENTREVISTA

O MULTDICS ENTREVISTA conversou com a professora doutora Eliane Debus, na entrevista são abordados o grupo Literalise e  os trabalhos com a temática étnico racial desenvolvidos pela professora e pelo grupo.

Assistam.

Tudo colorido, um livro que reforça o preconceito racial!

Eliane Debus e Joana Célia dos Passos

Professoras Doutoras UFSC

 

A produção literária para infância que circula no mercado editorial contemporâneo tem enegrecido nos últimos anos, em particular a partir da aprovação Lei no 10.639 (BRASIL, 2003), que elabora as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira (BRASIL, 2004), e outros documentos de implementação da lei que se acresceram nesses 14 anos, colaborando para a constituição de um acervo pluriétnico.

Nesse período demarcado aqui pelo ano de 2003, vimos um aumento significativo do mercado editorial brasileiro, a partir, segundo Debus (2017, p. 37):

[…] da necessidade de livros que tematizem e problematizem as relações étnico-raciais, por meio da representação de personagens negras como protagonistas e narrativas que focalizem o continente africano como múltiplo; desfazendo ideias enraizadas como aquelas que trazem as personagens negras em papéis de submissão e/ou retratando o período escravista, bem como a representação do continente africano pelo viés do exótico.

Embora a produção tenha se ampliado em quantidade isso não garante qualidade, bem como não se pode acreditar que a representação de personagens negras por si só qualifica a narrativa e que ela não traga uma representação de subserviência, ilustrações estereotipadas, e palavras racistas. Esse é o caso do livro Tudo colorido: preconceito racial, de Suelen Katerine de Andrade Santos (2015), publicado pela Editora Todolivro, que aqui analisamos.

O livro infantil Tudo colorido: preconceito racial (SANTOS, 2015) faz parte da “Coleção Bullyng”[1], que busca “alertar e educar as crianças sobre o prejuízo de atitudes agressivas, verbais ou físicas que se repetem sem motivação evidente e acabam causando dor e angústia, bem como traumas para uma vida”. Contudo, o que se percebe é uma narrativa que reproduz estereótipos suficientes para classificarmos como preconceituoso ao lançar um olhar subalternizante para as personagens negras, visto que são elas destituídas de decisões a respeito de si mesmas, facilmente acolhem as orientações de personagens brancos/as – médico e cabelereira – e, inclusive, uma delas nem nome recebe.

A autora transfere para a criança negra uma ideia de racismo às avessas ou racismo reverso. Como parte de um sistema de opressão e que estrutura as desigualdades, para que negros possam ser racistas, precisariam estar hierarquicamente em condições de terem poder sobre os brancos, o que não é o caso. Nesse sentido, o racismo reverso é uma ideia falsa que estimula a negação da estrutura racista que vivemos.

A narrativa tem como personagem a menina Tainá que sofre de dores de cabeça e o diagnóstico médico aponta como causa do mal as suas “lindas trancinhas” que eram muito apertadas, a prescrição médica é a de refazê-las mais frouxas. E, para atender à recomendação médica, a mãe leva a menina até o salão de Dona Goreti “uma sorridente mulher loira, alta um pouco gordinha”, mas a menina revida o atendimento, pois “não queria que ninguém que fosse de outra cor tocasse no cabelo dela. Apenas quem fosse negra igual a ela”.

O livro reproduz em vários aspectos estereótipos e reforça valores que têm sido combatidos fortemente pelo movimento negro e por ativistas antirracistas, em favor uma educação para as relações étnico-raciais, mas elencamos para esta leitura apenas dois. O primeiro diz respeito à temática do cabelo, tema recorrente em muitos livros infantis contemporâneos, mas, ao contrário da maioria, o título em tela traz as tranças como algo prejudicial e que causam problemas de saúde. Quando as tranças são apresentadas no comparativo com o de outra menina negra, a relação estabelece-se somente pelos enfeites coloridos, nas ilustrações essa é a diferença também, bem como quando Tainá reaparece com o penteado colorido. Não é curioso que o médico branco pareça entender muito mais de tranças do que a mãe da criança? Por que a mãe aceitou a orientação médica? A autora sugere negligência por parte da mãe e autoridade médica sobre o corpo das crianças negras. Tal como se evidencia no imaginário social sobre as mães negras e o descuido com seus filhos. Ainda, por que a autora escolheu a mulher branca como cabelereira não a “senhora baixinha de pele negra e cabelos bem arrepiados”? Por que a autora escolheu esse caminho para abordar a questão racial?

Nilma Lino Gomes (2002) tem discutido que cabelo e a cor da pele são uma dupla inseparável quando o assunto é identidade negra. Identidade essa que se constrói na relação que o/a negro/a tem sobre si, mas também na relação com o olhar do outro, no contato, no contraste, na negociação, na troca, no conflito e no diálogo com o outro. Portanto, a identidade não se constrói isoladamente. Para o autor, “o cabelo e o corpo são pensados pela cultura” (GOMES, 2002, p. 20) e, por isso, não podem ser considerados simplesmente como dados biológicos, pois eles na sociedade brasileira também expressam as relações raciais e o racismo.

O segundo aspecto que gostaríamos de trazer é a representação de outra personagem, mulher adulta e, talvez, cabeleireira ou ajudante do salão, que é descrita como “uma senhora baixinha de pele negra e cabelos bem arrepiados” e numa condição de subalternidade servindo a menina, cuja ilustração a representa bem penteada com uma faixa nos belos cabelos e não de “cabelos bem arrepiados”. Essa senhora, sem nome, representada pela autora, remete à ideia de mulher negra como sinônimo de trabalhadora doméstica e que tem por natureza cabelos arrepiados. O destaque que fazemos aqui da imagem e das consequências de relacionar essa ocupação profissional atribuída à mulher negra não tem como intenção desmerecê-la, mas refletir sobre a manutenção do estigma e da desvalorização dessa categoria profissional.

A proposta do livro vai de encontro à proposta da coleção ao inverter a relação de embate entre uma criança e um adulto, como se a pequenina Tainá pudesse causar traumas e angústias na dona Goreti. Demonstra que o conceito preconceito racial não foi devidamente apropriado pela autora e escancara uma tentativa de desqualificação do preconceito e da discriminação racial vivenciada pela população negra.

Se ficássemos somente na análise do livro poderíamos aqui encerrar, no entanto, estamos falando de um livro produzido no Sul do Brasil, em Santa Catarina, um estado que assume a branquitude como um valor e sinônimo de desenvolvimento e pujança; onde recentemente cartazes neonazistas foram espalhados pela cidade em que realiza a festa “mais alemã do Brasil”; onde a suástica tem sido pichada até nas paredes de campus universitário; em que agência de fomento a ciência e tecnologia nega apoio institucional a evento de pesquisadores negros e ativistas antirracismo, baseado em parecer racista; onde professora universitária comete racismo com estudante negro por causa de seus cabelos, entre outros.

Santa Catarina a despeito do histórico processo de branqueamento pelo qual passou o Brasil é um estado pluriétnico, multicultural e com grande diversidade sociorracial. O censo de 2010 informa que Santa Catarina tem em seu território aproximadamente um milhão de negros e negras, ou seja, 16% da população total que se encontra distribuída em todos os seus municípios e evidentemente com algumas concentrações regionais. Sua participação é ativa na economia, por meio da produção agrícola, industrial, nas relações de comércio, na cultura e na educação.

Por certo, num contexto favorável ao ódio como o que experienciamos no Brasil, levantar nossa voz contra o racismo e todas as formas de discriminação traz toda sorte de respostas, há até a tentativa de hierarquizar as práticas e manifestações racistas para atenuar o impacto do racismo como se isso fosse possível. Nesse sentido, os grupos de pesquisa Literalise: Grupo de Pesquisa sobre Literatura Infantil e Juvenil e Práticas de Mediação Literária, NUVIC: Estudos sobre Violências e Alteritas: Diferença, Arte e Educação do Centro de Ciências da Educação (CED), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não poderiam deixar de se pronunciar frente a esse livro que é dirigido a crianças, por entendermos que o mesmo reforça estereótipos sobre a população negra e reproduz a ideia de racismo reverso como algo com existência real.

 

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003. Disponível em: 14 nov. 2017.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução no 1, de 17 de junho de 2004. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 jun. 2004. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/res012004.pdf&gt;. Acesso em: 14 nov. 2017.

DEBUS, Eliane. A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura para crianças e jovens. São Paulo: Cortez, 2017.

GOMES, Nilma Lino. Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte. 2002. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.

OLIVEIRA-MENEGOTTO, Lisiane Machado de; PASINI, Audri Inês; LEVANDOWSKI, Gabriel. O bullying escolar no Brasil: uma revisão de artigos científicos. Psicologia: teoria e prática, v. 15, n. 2, p. 203-215, 2013. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872013000200016&lng=pt&tlng=pt&gt;. Acesso em: 12 nov. 2017.

SANTOS, Suelen Katerine de Andrade. Tudo colorido: preconceito racial. Blumenau, SC: Todolivro, 2015.

[1] De acordo com Oliveira-Menegotto, Pasini e Levandowski (2013, p. 204), “bullying é um fenômeno que se caracteriza por atos de violência física ou verbal, que ocorrem de forma repetitiva e intencional contra uma ou mais vítimas”.

Anais do VII SLIJ

Estão disponíveis os anais do VII Seminário de Literatura Infantil e Juvenil e Práticas de Mediação Literária.

Anais do VII SLIJ

ATIVIDADES REALIZADAS PELO GRUPO EM 2015

Participação em eventos:

 

  • Semana Acadêmica de Letras – Universidade Federal de Santa Catarina
  • IV Congresso Internacional de Literatura Infantil e Juvenil CELLIJ/UNESP – Presidente Prudente
  • Simpósio sobre Formação de Professores (SIMFOP) – Unisul/Tubarão
  • 6º Seminário Brasileiro de Estudos Culturais e Educação – 3º Seminário Internacional de Estudos Culturais e Educação – ULBRA-Canoas/RS.
  • VII seminário internacional e XVI seminário nacional mulher e literatura 2015 – Universidade de Caxias do sul/RS

 

Seminários/Oficinas/Conferências:

  • Seminário Especial: Políticas Públicas de Leitura para a Educação Básica – Ministrante: Profa. Dra. Célia Regina Delácio Fernande (Universidade Federal de Grande Dourados/MS)
  • Seminário Especial: “LITERATURA JUVENIL CONTEMPORÂNEA: CAMINHOS E DESCAMINHOS” – Ministrante: Profa. Dra. Diana Navas (PUC/SP)
  • Seminário Especial: “LER E COMPREENDER O TEXTO LITERÁRIO: LIÇÕES DE ESTRATÉGIAS DE LEITURA” – Ministrante: Profa. Dra. Renata Junqueira de Souza (UNESP/Presidente Prudente/SP)
  • 150 anos de Alice – Encontro com Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros
  • Oficina/ Palestra: Leitura Literária para o reencantamento da vida – Com Cléo Busatto
  • Oficina/Palestra: A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura infantil e juvenil – Com Rogério Andrade Barbosa
  • Conferência: Livros Novos para Novos Leitores: para conhecer os livros não ficcionais – Com Ana Garralón
  • Palestra: Literatura para crianças e jovens: signos e suportes contemporâneos – Professora Dra. Maria Zilda da Cunha (USP)
  • Palestra: Literatura Infantil na sala de aula:  desafios e estratégias – Professor Doutor Luis Camargo

 

Exposições:

 

  • Semana Municipal do Livro Infantil – Prefeitura Municipal de Florianópolis – Exposição de livros artesanais da(o)s acadêmica(o)s  da 5ª fase do Curso de Pedagogia/UFSC: “Livros brincantes: uma tecitura artesanal”.
  • 37ª Reunião Anual da Anped – Exposição de livros artesanais da(o)s acadêmica(o)s  da 5ª fase do Curso de Pedagogia/UFSC: “Livros brincantes: uma tecitura artesanal”.